Sim. Eu costumava sonhar. Houve um tempo em que eu retirava as nuvens do céu e era capaz de pintá-lo de azul. Eu costumava sorrir das mazelas da vida e abraçar as dores até que elas se transformassem em ensinamentos. Fazia da tristeza minha inimiga e lutava bravamente contra ela. Fechava a porta sempre que sentia que ela estava pra chegar. Guardava sorrisos e boas lembranças, lia bons livros e frequentava os melhores cafés da cidade. Sim. Eu costumava ser feliz, embora talvez você não acredite. Eu fui feliz até setembro de 1992. Mas o tempo, o tempo é carrasco de todo o tipo de amor. Inclusive do meu amor à vida.
Seu avô, Mabel, apareceu pra mim em uma quinta-feira. Foi até a biblioteca e procurava por um volume de Machado de Assis que eu logo o ajudei a encontrar. Malandro que era, sorriu e disse que eu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Me ganhou com essas palavras e depois disso eu não podia recusar ele nem um café, tampouco meu coração.
Fomos felizes, Mabel. Costumávamos sair aos domingos e ir a todos os bailes da cidade. Mesmo na época da recessão, ele tinha aquela coisa que me fazia rir apesar do desemprego e do pouco pão. E quando seu pai nasceu, ele foi o homem mais feliz do mundo.
Sim. Eu costumava ser feliz.
Mas daí veio o tempo, filha. E o tempo leva tudo. Levou a saúde do seu avô em uns poucos meses e em no início de setembro ele foi embora. Uma vez eu disse que nunca ia abandoná-lo. E quando ele se foi, eu fui com ele.
“Você já teve um sonho, vovó?”
portuária









